A presença de mulheres negras na ciência ainda é um grande desafio, especialmente nas áreas de exatas e biológicas. Embora a Organização das Nações Unidas (ONU) defenda a igualdade de gênero como um fator essencial para o desenvolvimento sustentável, os dados mostram que essa inclusão ainda é limitada. No Brasil, a situação é ainda mais preocupante quando se cruza o recorte de gênero com o de raça.
De acordo com um estudo do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Gemaa/UERJ), em 2023, apenas 2,5% dos professores de pós-graduação em ciências exatas, da terra e biológicas eram mulheres negras, pardas ou indígenas. Já as mulheres brancas somavam 29,2%, enquanto os homens brancos dominavam o setor, com quase 61% dos cargos.
“A desigualdade de gênero já é evidente nessas áreas, mas a desigualdade racial torna o cenário ainda pior. Quando falamos da presença feminina nas ciências exatas, percebemos que a situação para mulheres negras é ainda mais grave”, avalia a pesquisadora Márcia Cândido, do Gemaa.
Representatividade e desafios acadêmicos
A professora Márcia Pereira, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), conhece essa realidade de perto. Ela é a única mulher negra no quadro de docentes do Centro Tecnológico da UFES, que conta com sete cursos de graduação e seis de pós-graduação em engenharia e informática. “Quando entrei na universidade, já era um ambiente predominantemente masculino e branco. Hoje, como docente, a situação ainda não mudou muito”, conta.
Para ela, a presença de mulheres negras na ciência é essencial para inspirar as novas gerações. “Eu sempre participei de palestras em escolas e atividades acadêmicas para mostrar às crianças que elas podem ocupar esse espaço. A representatividade é fundamental para romper barreiras.”
O papel das cotas na transformação do ensino
A política de cotas tem sido apontada como uma das ferramentas essenciais para ampliar a diversidade no ensino superior. A estudante Daphny Santos, de 19 anos, é um exemplo desse avanço. Ela faz parte da primeira turma de bacharelado em Matemática da Tecnologia e Inovação do ImpaTech, faculdade do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), e ingressou pelo sistema de cotas.
“A diversidade na sala de aula me fez sentir mais acolhida e motivada. Ter outras pessoas com histórias parecidas com a minha mostra que podemos chegar longe”, afirma Daphny.
O ImpaTech reserva 50% das vagas para alunos de escola pública, e dentro desse percentual, há cotas específicas para negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. Além disso, há uma reserva de vagas para garantir que pelo menos 25% dos alunos sejam mulheres.
Desafios na docência e na pesquisa
Apesar do avanço das cotas no ingresso universitário, o acesso das mulheres negras a cargos de docência e pesquisa ainda enfrenta obstáculos. A médica e pesquisadora Monique França, doutoranda em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ressalta que a diversidade na ciência não é apenas uma questão de inclusão, mas uma necessidade para ampliar a qualidade das pesquisas.
“Quando você tem diferentes vivências dentro da academia, as pesquisas se tornam mais ricas e abrangentes. Muitas questões antes ignoradas começam a ser discutidas, como o impacto do racismo na saúde da população negra”, afirma Monique.
Além disso, a maternidade ainda é vista como um entrave na carreira acadêmica das mulheres. “Quando engravidei no mestrado, me perguntaram como eu faria para continuar os estudos. Essa pergunta nunca seria feita para um homem que está prestes a ser pai”, critica Monique.
Caminhos para ampliar a diversidade
A aplicação das cotas em concursos para professores universitários ainda enfrenta desafios. Segundo um estudo da Universidade Federal do Vale do São Francisco e do Insper, cerca de 10 mil professores negros poderiam ter sido contratados entre 2014 e 2022 caso as vagas não fossem fracionadas por departamento, o que impede a aplicação da reserva de 20% das vagas para negros, prevista na lei de cotas do serviço público.
Em 2023, o Congresso Nacional aprovou um projeto para ampliar a reserva de vagas para 30% e incluir indígenas e quilombolas. A proposta ainda está em tramitação no Senado.
Enquanto isso, pesquisadores e docentes defendem soluções alternativas, como editais únicos para diferentes áreas do conhecimento e seleções direcionadas para garantir mais equidade. “A diversidade na ciência não beneficia apenas as minorias. Ela promove inovação e desenvolvimento para toda a sociedade”, conclui Márcia Cândido.