Ao completar três anos, nesta segunda-feira (24), a Guerra da Ucrânia entra em uma fase de reviravolta geopolítica, marcada pela nova estratégia dos Estados Unidos sob influência de Donald Trump. Segundo especialistas, o país busca excluir a Europa das negociações de paz, isolar o governo ucraniano e atender algumas exigências de Moscou.

A mudança na abordagem dos EUA reflete uma tentativa de reestruturar sua economia diante da perda de competitividade global, especialmente em relação à China. Para o ex-senador italiano e especialista em Europa, José Luís Del Roio, o cenário atual sinaliza um realinhamento profundo do capitalismo norte-americano.
“Pesquisas e livros dos EUA já alertam que sua economia está à beira de uma crise. Parece que tudo está bem, mas, na realidade, não está. A dívida interna é imensa, e as tensões dentro do próprio país são altas.”
Segundo ele, esse cenário pode levar ao enfraquecimento da União Europeia e da Otan, tornando a Europa politicamente órfã no novo contexto global.
Europa Enfraquecida e Nova Configuração Global
O professor de Relações Internacionais da UFRJ, Elídio A. B. Marques, lembra que, antes do conflito, a Europa se aproximava da Rússia, especialmente devido à dependência do gás natural russo. No entanto, com a guerra, o continente se alinhou totalmente aos interesses dos EUA.
Agora, a política norte-americana pode acelerar o fim do conflito, deixando a Europa ainda mais marginalizada no cenário global.
“A Europa já vinha perdendo protagonismo, mas agora sua posição de subordinada aos EUA se torna ainda mais evidente.”
EUA e a Pressão Sobre a Ucrânia

A nova postura dos EUA também inclui exigências diretas à Ucrânia, principalmente no que diz respeito ao controle de seus recursos naturais estratégicos. O governo norte-americano busca garantir acesso a terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a indústria tecnológica global.
“A Ucrânia tem 20% do grafite mundial. Os EUA querem impedir que a China e a Europa tenham acesso a esses recursos estratégicos”, explica Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics.
Segundo especialistas, essa exigência é uma forma de chantagem. Trump argumenta que a ajuda financeira e militar dos EUA, que ultrapassa US$ 350 bilhões, precisa ser “retribuída” pela Ucrânia.
“É uma relação próxima da escravidão. Mesmo que o governo ucraniano tenha cometido desvios, não se pode cobrar essa dívida da população”, afirma Del Roio.

Rússia Sai Fortalecida
A mudança no posicionamento dos EUA pode acabar beneficiando a Rússia, que já obteve avanços territoriais no leste da Ucrânia e pode ver sua demanda de impedir a adesão de Kiev à Otan atendida.
“Direta ou indiretamente, os EUA estão ajudando Moscou a se fortalecer no cenário global, especialmente na relação com China e Irã”, avalia Carolina Pavese.
Nova Ordem Mundial
Com o conflito prestes a tomar um novo rumo, especialistas apontam que o mundo entra em uma fase de redefinição do equilíbrio global, rompendo com a ordem estabelecida desde 1945.
“Será necessário um novo arcabouço institucional para definir as relações entre as potências. Rússia, China e Estados Unidos terão que negociar um novo equilíbrio, e a África também deverá ser considerada”, conclui Del Roio.
A Guerra da Ucrânia, que começou como uma disputa territorial, agora se torna um reflexo das mudanças profundas que moldarão o futuro da política internacional.