O Brasil pode dar um passo significativo rumo à justiça tributária com a nova proposta de reforma do Imposto de Renda (IR) enviada pelo governo ao Congresso Nacional. O projeto prevê isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais e cria uma nova faixa de tributação para rendimentos acima de R$ 50 mil por mês. Se aprovado, o modelo se aproxima dos sistemas tributários progressivos adotados por países como França e Alemanha, onde a taxação sobre os mais ricos é utilizada como mecanismo de redução das desigualdades sociais.
Impacto da Reforma: Quem Ganha e Quem Paga Mais?
O texto enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso prevê um sistema de compensação: a redução da arrecadação com a isenção dos mais pobres será equilibrada pela taxação dos mais ricos. De acordo com o Ministério da Fazenda, as novas regras irão:
- Isentar 10 milhões de brasileiros do pagamento do IR, representando uma renúncia fiscal de R$ 25,84 bilhões;
- Criar uma nova alíquota para cerca de 141,3 mil contribuintes com renda superior a R$ 600 mil anuais;
- Incluir dividendos (atualmente isentos) no cálculo de tributação das altas rendas;
- Beneficiar nove em cada dez brasileiros que pagam IR, com isenção total ou parcial.
Mesmo com a mudança, a nova tributação sobre altas rendas atingiria apenas 0,13% dos contribuintes e 0,06% da população brasileira.
Por que a Reforma do IR é Essencial para Reduzir a Desigualdade?
A economista Clara Zanon Brenck, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que a justiça tributária é um princípio essencial para uma economia mais equilibrada. Em um sistema justo, quem ganha mais contribui proporcionalmente mais para o financiamento do país.
“Países desenvolvidos aplicam um modelo progressivo de tributação, o que reduz desigualdades. O Brasil, ao adotar essa mudança, se aproxima desses modelos mais eficientes”, explica Brenck, que também é pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-USP).
A Carga Tributária dos Mais Ricos Ainda é Baixa?
Mesmo sendo um avanço, especialistas apontam que a alíquota proposta para rendimentos mais altos ainda poderia ser mais elevada. Estudos do Made-USP sugerem que um imposto sobre grandes fortunas na faixa de 15% teria um impacto maior na distribuição de renda.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende a proposta, mas reconhece que há espaço para um debate mais amplo. “O grande mérito dessa reforma é que ela abre uma avenida para a discussão sobre justiça tributária no Brasil”, declarou em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, transmitido pelo Canal Gov.
Tributação Indireta e o Peso sobre os Mais Pobres
Outro ponto de atenção levantado por especialistas é que a carga tributária no Brasil ainda recai de forma desproporcional sobre os mais pobres. Isso acontece porque grande parte da arrecadação vem de impostos indiretos, como aqueles cobrados sobre produtos e serviços. Assim, mesmo quem tem menor renda paga proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos.
A primeira etapa da Reforma Tributária, aprovada no início do ano, buscou unificar tributos, mas não alterou a estrutura que faz com que os impostos indiretos tenham um peso maior no orçamento das famílias mais pobres. Para a economista Clara Brenck, essa separação entre tributação sobre consumo e renda impede mudanças mais profundas na estrutura tributária brasileira.
“A reforma precisaria mexer na proporção do quanto arrecadamos com impostos sobre renda e sobre consumo. Como foram feitas separadamente, essa relação permaneceu inalterada”, analisa Brenck.
Brasil Ainda Tem uma das Maiores Desigualdades do Mundo
A disparidade de renda no Brasil segue alarmante. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os 10% mais ricos do país ganham, em média, 14,4 vezes mais do que os 40% mais pobres.
O ministro Fernando Haddad enfatizou que essa realidade precisa ser modificada. “O Brasil está entre os dez países com pior distribuição de renda do mundo. Precisamos explicar isso para a sociedade e mostrar que essa reforma é um passo fundamental para reduzir essa desigualdade.”
Tramitação no Congresso e Desafios Políticos
O projeto de lei ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para entrar em vigor. Durante a tramitação, alterações podem ser feitas pelos parlamentares, o que gera preocupações entre especialistas e economistas.
O analista João Leme, da Tendências Consultoria, alerta que existe o risco de resistência política à tributação sobre os mais ricos. “Há possibilidade de que a tributação sobre altas rendas seja enfraquecida ou removida durante as negociações. Isso poderia gerar um impacto fiscal negativo, aumentando incertezas e dificultando o equilíbrio econômico do governo.”
Conclusão: Um Passo na Direção Certa, Mas Ainda Insuficiente
A reforma do Imposto de Renda pode aliviar a carga sobre a classe média e os mais pobres, além de estabelecer um modelo tributário mais progressivo. No entanto, especialistas defendem ajustes para aumentar a tributação sobre os mais ricos e reduzir a dependência de impostos indiretos, que penalizam os mais pobres.
Com um dos maiores índices de desigualdade de renda do mundo, o Brasil precisa avançar para um modelo tributário que promova equidade e justiça social, garantindo que a arrecadação fiscal seja distribuída de forma mais equilibrada entre todas as camadas da população.